Chegou o Momento de Construir

 

No passado dia 14 de novembro, aconteceu no Antigo Bar da FBAUL mais um evento que integra o projeto “E se a política acabasse amanhã?” e que consistiu na mostra do trabalho dos alunos finalistas de Design de Comunicação.

O evento começou com a performance do aluno Carlos Silva que fez um discurso inicial com o intuito de contextualizar aquele que o observava. Neste discurso, Carlos levantou algumas das perguntas que também a ele foram surgindo durante a construção do projeto.  Com um olhar e tom crítico, o aluno deu aquela que é a opinião destes estudantes sobre a política e aqueles que a fazem.

 

“Nunca vos passou pela cabeça, uma questão intrigante? Serei eu alienado, seremos todos nós alienados?”

Esta foi a pergunta com que o discurso começou. Aquilo que Carlos quis transmitir foi que sim, todos nós convivemos uns com os outros e vivemos naquilo a que chamamos sociedade. Somos todos cidadãos e todos os cidadãos adoram política. Esta política, contudo, deveria fomentar a condição fundamental do cidadão e não é isto que acontece. Depois, faz uma análise ao particular, fala daquilo que acontece na faculdade e à nossa volta. Refere, que algumas das vezes somos limitados a determinadas escolhas e que o exercício de persuasão é algo regular. Refere também a questão da abstenção e ao facto de muitas das vezes esta ser atribuída aos jovens. Jovens estes que são caracterizados muitas vezes como “alheios, desinteressados e que não conhece as responsabilidades de ser cidadão do país.” Volta à pergunta inicial. Como jovem sente-se preso e limitado ao conhecimento político. Será então a alienação a principal causa de abstenção? Provavelmente.  “Será o nosso sistema político o mais adequado à nossa atual situação?” Provavelmente não. O político perde então credibilidade perante a sociedade. Citando Emma Goldman então ” Se o voto pudesse mudar alguma coisa, seria ilegal. Torna-se o voto ilegal quando este ameaça uma mudança significativa: da maneira de viver e da maneira como os cidadãos se relacionam.”

Posto isto, Carlos parte para uma conclusão. Para haver mudança é preciso haver uma reação assumida e o envolvimento do indivíduo no próprio sistema. A mudança requer que o indivíduo participe no sistema que pode ou não questionar. Quer esta participação seja a através do voto ou de outro modo. Daqui serão possíveis duas opções: ou uma mudança do sistema ou um colapso do mesmo. Finalmente, Carlos termina afirmando o seguinte:

“Eu não deposito nem uma ínfima parte da minha confiança no nosso sistema político. Em vez disso, deposito a minha confiança no cidadão, no ser individual, nas suas crenças, na sua liberdade e na sua capacidade de pensar.”

 

Website:

De seguida, foram apresentados os alunos que construíram o Website  (Inês, Carlos e Marla) e a publicação ( Maria Inês e Marta).

Em primeiro lugar, foi apresentado o Website que tem como nome “E se a política” e que se encontra aqui: http://eseapolitica.belasartes.ulisboa.pt/

Tanto o Website como a publicação encontram-se divididos em três narrativas.

1.O Abismo e as Vertigens;

2-A Queda Livre:  Conhecer um tempo diferente:

3-No fim, um começo: Intervir no nosso tempo.

Foi explicado o site pelos alunos e a ideia de que estes queriam que o visitante não tivesse uma escolha definida enquanto navegava no website, mas que sentisse que podia descobrir  aquilo que o site tem para lhe oferecer. O objetivo era o indivíduo escolher um dos capítulos e navegar assim pela publicação, que em mão tem uma ordem sequencial, mas na internet não. No site, é possível ir observando os trabalhos dos vários alunos, não sendo necessária uma ordem específica. Tudo isto é considerado um gesto político.

É também possível visionar o nome e trabalhos de cada aluno.  Uma característica que difere do ano anterior é o facto de existir uma Galeria Virtual, tanto na Fábrica como na Faculdade, para que seja possível para aqueles que não puderam ver a exposição, a verem e não ser algo efémero.  Finalmente, é também possível responder de forma online e através da plataforma à pergunta “O que posso fazer por um futuro melhor?”

 

Publicação:

De seguida e em último lugar, foi apresentada a publicação que está dividida em dois grandes miolos, sendo que o segundo miolo está divido em três narrativas. No primeiro miolo existe um resumo, objetivos e resultado de um workshop realizado pelos alunos como ponto de partida e como construção de alicerces para o início do projeto. O segundo miolo, que está dividido em três narrativas, apresenta globalmente os trabalhos realizados no primeiro e segundo semestre do último ano de curso. Esta publicação é também constituída por testemunhos e textos críticos de vários professores.

Segundo as alunas que apresentaram o livro, cada uma das três narrativas pode corresponder a cada ano do curso de Design de Comunicação.

1.O Abismo e as Vertigens: primeiro ano. O ano em que se está um pouco perdido e não se sabe bem o que fazer. O ano em que tudo parecem “abismos” e em que é preciso reagir.

2-A Queda Livre: Conhecer um tempo diferente: segundo ano. O ano em que, segundo as alunas, cada um se solta e voa em queda livre. Já não se está tão preso, já se começa a olhar o mundo com o olhar crítico e menos infantil.

3-No fim, um começo: Intervir no nosso tempo: terceiro ano. Ao contrário do que se possa pensar, não se volta ao abismo. No último ano, já se tem uma mentalidade diferente e cada obstáculo e proposta é um começo. Neste ano, os alunos já sentem que conseguem fazer tudo a que são propostos e que, neste momento, já têm uma voz no mundo.

 

 

Depois desta apresentação, houve mais uma performance representada pela aluna Mara Abreu. Nesta performance, esta encontrava-se com um vestido branco numa sala um pouco escura. Começa a sua atuação:

“Ás vezes, a discussão política tem destas coisas. Discussão politica, sempre atrás dos nossos passos.”

Depois de ter dito isto, atou umas botas as duas pernas e começou a andar. Lentamente, como se as botas estivessem carregadas com algo. Mais tarde, perceber-se-á que estas botas representam a política.

“Mais facilmente me decidia por botas ou sandálias, se soubesse que o caminho tem espinhos. E tu política? És um corpo morto? E eu jovem que irei fazer? Enterrar-te?”. Retirou as botas e coloco-as na ponta da sala.

As botas responderam: “Espera, dou-te três anos. Três anos para sonhares alto. Três anos para mudares o mundo. Três anos e um estágio numa grande empresa. Não é remunerado, mas tu precisas de experiência.”

Mara afirmou: “Não me arrependo de sonhar alto e o mundo lá fora até me parece curioso. Mas o que queres dizer é que não pensaste no meu espaço cá dentro. Três ano para sonhar alto, alto. Um canudo na mão e todo o tempo do mundo para cair lá em baixo baixo”. Três anos para pensar que qualquer trabalho tem o seu valor. Três anos para pensar que Design não é nem pode ser apenas um invólucro, a embalagem da nossa necessidade. Três anos e os dois anos que me tiraste?”

Ao que as botas respondem: “Vai mas é desfolhar couves! Mas afinal, o que é que tu queres?”

Mara responde: “Vou pois.  Queres que eu vote e eu não posso votar sem saber o que se esconde atras da folha branca, não é? Meus caros, eu represento a geração que estuda até mais tarde. Conhecimento é uma arma. Que se pode esperar de uma geração com cortes no conhecimento, cultura e na educação? Política, tu precisas de renovar as falas e eu de um novo discurso. E eu, vou enterrar-te!”

Ouve-se uma voz de criança que diz: “Diz olá a uma política nova”!

Mara começa a descascar uma couve e responde: “A política da couve. Sem duvida mais credível.

A voz de criança reaparece e no final do discurso pergunta: “e tu? Desististe da politica?”

Mara termina: “Meus caros, alguém tem fome? Eu tenho fome. Vamos imaginar um cenário. Imaginem que vocês não têm fome, mas eu tenho fome. Eu não deixo de ficar com fome só porque vocês não têm fome. E porquê? Porque fome é uma necessidade e ainda por cima se eu gostar de algo e não o souber fazer, vou procurar alguém que o saiba fazer. Porque fome é uma necessidade e quem tem a necessidade da fome vai procurar o que há para comer. E nisto, dou vos um exemplo. O comboio é um sítio que me dá fome. A discussão política de comboio. E o telejornal do outro dia, também me deu fome. E nisto, passamos a vida esfomeados. Há uns dias, mais ou menos, foram as eleições. E houve que não soubesse o que comer. Houve quem não mastigasse e nestes assuntos é preciso ruminar. Nestes assuntos é preciso ruminar. “

A aluna, começa a mastigar a couve que tinha na mão e oferece-a aos presentes. Conclui a performance gritando “Viva a política, viva!”

 

 

Conclusões:

Tanto o website como a publicação são o reflexo do trabalho e esforço colocado por estes alunos neste projeto. Acima de tudo, conseguiram transmitir a ideia que queriam e realizar um projeto que envolvesse toda a gente e que abordasse um tema que conseguisse criar diversos métodos de investigação, reflexão e discussão. Há uma diversidade imensa de material concretizado também devido à enormidade que é a política. Apesar disso, foi possível condensar este trabalho na publicação e no website e tal foi feito de forma muito profissional e objetiva, que são características essenciais para o sucesso de um projeto.

Performance: Toda a performance foi algo metafórico, mas que tinha como objetivo transmitir uma ideia. A ideia que fora muito reforçada na apresentação e que é novamente defendida, de maneira diferente, na apresentação de Mara. Esta ideia de que os jovens e a geração que é representada por estes alunos não está alheia aos problemas e à política. Não é por serem jovens que deixam de estar atentos e de ter uma palavra a dizer.

Mais uma vez, o curso de Design é muitas vezes referido, visto que o próprio trabalho é uma relação entre os três anos de curso, a política e aquilo que o Designer tem o dever de fazer.

Penso que todo este projeto é algo muito importante e que deve ter permitido uma grande reflexão por parte dos estudantes. A política é um assunto que muitas das vezes assusta, mas é possível perceber por este trabalho que todos nós somos um pouco políticos e que nos cabe a nós tentar mudar aquilo que nos parece estar mal. Não é por sermos jovens que não temos uma palavra a dizer e uma opinião a partilhar com os outros. É necessário, contudo, que cada um de nós tome consciência da situação em que vivemos atualmente e faça a sua contribuição de forma informada e clara. Foi-me também possível compreender que o Design pode ser um ato político e que como possível Designer de Comunicação terei o objetivo de transmitir ideais e mensagens que podem ser importantes para uma mudança de mentalidades. Não é necessário mudar o mundo, porque é algo impossível. Porém se começar em casa, na minha cidade, poderei um dia conseguir comunicar com o país onde vivo e cumprir a responsabilidade social que tenho como cidadã.

 

Joana Simões

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s