Mário de Sá-Carneiro

O meu alter ego, António, irá dar vida ao poeta Mário de Sá -Carneiro. Este foi um poeta modernista português. Nasceu a 19 de Maio de 1890 em Lisboa. A mãe morreu quando tinha apenas dois anos, ficando ao cuidado dos avós e de uma empregada. Aos vinte anos matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, mas não chega a concluir o ano escolar. Viveu em hóteis e frequentava o meio artístico de Paris, quando se mudou para lá. Mais tarde na sua vida, o segundo casamento do pai, a falta de dinheiro e os seus fracassos amorosos fazem com que a correspondência que trocava com o seu grande amigo Fernando Pessoa revelassem uma angústia crescente de um homem perdido.  Fazia parte da Geração Orpheu. Esta geração tinha como principal objetivo não dar importância ao passado e olhar sempre para a frente, para o futuro. Queriam agitar as mentalidades do público e colocar as convenções da altura (1915) em causa.

O nome Orpheu vem do nome do músico grego Orfeu que para salvar a mulher amada tinha de a trazer de volta ao mundo dos seres vivos, sem nunca olhar para trás.

Assim, esta geração queria edificar Portugal, olhando sempre para o futuro.

Na revista Orpheu personalidades como Fernando Pessoa, Almada Negreiros e o próprio Mário de Sá-Carneiro, escreviam artigos em que realizavam os objetivos a que se tinha proposto. Assim,  causou um enorme impacto em Portugal devido à sua exuberância e novidade.

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Mário de Sá-Carneiro
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Revista Orpheu

Mário de Sá-Carneiro foi um escritor e um dos enormes amigos de Fernando Pessoa. Contudo, por não levar a vida que desejava e por sentir que esta dificilmente se iria concretizar, acabou por suicidar, escrevendo uma carta a este grande amigo, justificando-se:

Paris – 31 Março 1916

Meu Querido Amigo.

A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas “cartas de despedida”… Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui… Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas: mas não tenho dinheiro. […]

Mário de Sá-Carneiro.

Durante a vida e carreira, Mário de Sá-Carneiro aborda várias correntes literárias como o decadentismo e o saudosismo, o que se relaciona com a personalidade do meu alter ego. Devido à vida solitária e frustrante que viveu, demonstra essas características na poesia onde se autorretrata como inútil. Esta crise de personalidade levou-o, mais tarde, a iniciar um tipo de escrita mais sensorial, que o fazia inverter a ordem dos acontecimentos e descrever tudo como um frenesim. Ao sentir que não conseguia viver da maneira como sonhava, começou a escrever, mais recentemente, como se quisesse matar o próprio eu.

Depois de descobrir uma pouco mais sobre esta personalidade, fiz alguma pesquisa na obra poética do mesmo, acabando por perceber que muitas das temáticas por ele abordadas vão de encontro à personalidade do meu alter ego. Assim, a escolha ficou automaticamente feita. Tal como António, Mário de Sá-Carneiro desvaloriza-se a si mesmo e acha-se pouco útil na sociedade em que vive. A vida vai passando, melancólica e entediante. Contudo, a necessidade de descrever aquilo que acontece à sua volta é algo muito recorrente, o que o leva a aproximar-se, mais uma vez, de António. Ambos vivem uma vida pouco feliz, em que os sentimentos e as emoções são sempre os de tristeza, frustração e apatia. A personalidade de António vai muito de encontro à personalidade de Mário de Sá Carneiro, visto que muitos dos acontecimentos que ocorreram na vida do poeta podem ter, de certa forma, levado o mesmo a olhar para a vida tal como António o faz.

O poema de Mário de Sá Carneiro que escolhi para o meu poemário foi DispersãoEscolhi este poema porque, de todos os que tive a oportunidade de ler, foi aquele que despertou em mim maior emoção e que me fez relembrar de forma mais genuína o meu alter Ego e a forma como este é e vê o mundo. Todo o poema descreve uma nostalgia, uma saudade, uma tristeza e um sentimento de perda e dispersão individual, que são sentimentos que se relacionam muito com a personagem que criei. Para além disto, todo o poema é, na minha opinião, gráfico e remete muito a certas emoções, dependendo também da interpretação de cada um.

Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias…
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho, erro —
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi… Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!…

E sinto que a minha morte —
Minha dispersão total —
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas…
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas…

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas Pra se dar
Ninguém mas quis apertar
Tristes mãos longas e lindas

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal…
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?… Ai de mim!…

Desceu-me na alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em urna bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço…
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço,…
…………………………….
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba

Mário de Sá-Carneiro

Bibliografia:

Mário de Sá Carneiro Poemas. Editora Relógio D’Água. Coleção Clássicos para Leitores de Hoje.

Joana Simões

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