File #3: III Encontros de Design de Lisboa

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“O design está em tudo o que nos rodeia e por isso é que estamos aqui.” Foi com um discurso de boas vindas, que o professor Doutor Vice-Reitor da Universidade de Lisboa deu início aos terceiros Encontros de Design de Lisboa na Faculdade de Belas Artes. O evento dividiu-se em dois grandes painéis: o primeiro intitulava-se de “Design e Identidade” e o segundo “Design e Complexidade”. O primeiro painel teve a participação de Mário Trimarchi, Philip Cabau e Joana Quental. Depois de um debate e de pausa para almoço, iniciou-se então o segundo painel do dia que contou com a participação de Fátima Pombo, Francisco Laranjo, os brasileiros Luiza e Pedro e, concluindo o dia, a apresentação de uma conferência por Teal Triggs. Nesta terceira edição dos Encontros de Design pretendia-se revelar e discutir a identidade do design que é constantemente reinventada, que se insere numa variedade de culturas e que abre espaço para a criatividade e idealização.

Embora concorde que todas as conferências foram enriquecedoras e muito motivadoras, aquela que captou grande parte da minha atenção foi a apresentação feita por Mario Trimarchi, cujo nome era “The similing objects”.

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Mario Trimarchi

Mario Trimarchi é um arquiteto e designer que vê o desenho “à mão livre” como algo que serve para entender melhor aquilo que nos rodeia. Fundou o atelier FRAGILE em 1999 onde desenvolve e projeta identidades, imagem corporativa e alfabetos visuais, ou seja, uma investigação pessoal sobre o design. Trabalha e colabora com diferentes empresas, maioritariamente empresas de mobiliário e decoração.

Mario inicia o seu discurso respondendo à pergunta  Como viver na complexidade?.  Para o designer é necessário ser-se muito simples, ou seja, ter a consciência de que muitas das vezes uma ideia é melhor do que duas e que o desenho permite colocar poesia e significado num mundo e numa sociedade que não acredita na poesia. Para este designer, o melhor instrumento de trabalho é o desenho e inicia sempre um projeto com esta metodologia. As coleções que projetou tiveram início no desenho e um dos objetivos durante a sua apresentação foi mostrar ao púbico estes desenhos e a reprodução destes em objetos reais.

Um exemplo dos projetos que realizou foi Strawberries Field Forever (2016), que incorpora peças, na minha opinião, muito interessantes. Este projeto tinha como principal objetivo retratar as paisagens que Mario Trimarchi desenhara de memória. Assim, cada um dos quatro tabuleiros que compõem a coleção reavivam a memória de uma vida e história campestre e rural. Todos juntos, constroem uma paisagem rural e nostálgica, mas feliz. A peça central que une os tabuleiros é um burro em aço que, segundo o criador, representa o tempo. Enquanto que nós, homens, podemos ficar muito tempo no terreno a trabalhar para produzir algo, o burro fica exatamente no mesmo sítio durante anos e é capaz de não fazer absolutamente nada.

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Estes tabuleiros devem então funcionar como uma peça única e que não deve ser sobrecarregada, pois perde o contexto e a dimensão de equilíbrio, caso tal aconteça. Para o designer, a própria peça de design, inclusivamente estes tabuleiros, são ou devem ser o objeto sobre o qual a casa ou a divisão onde se inserem se centraliza. Assim, a primeira peça a ser colocada no local a definir deve ser esta e, à volta da mesma, deve ser construído e decorado o espaço. O que normalmente as pessoas fazem é comprar os objetos de decoração depois de já terem toda a casa pronta, o que faz com que estes objetos percam todo o significado. Isto, para Mario, não faz sentido e a ordem de acontecimentos deve, por isso, ser contrária.

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O conjunto de tabuleiros

Outra coleção pensada por este designer foi a coleção intitulada de Ossidana (2016), que tinha como principal objetivo recriar uma peça tão rotineira e habitual como a chaleira do café, que muitas das vezes pode não ser assim tão prática como é suposto ser. Assim, partiu do formato de troncos, folhas e objetos que se encontram na natureza para criar uma peça com um caráter ergonómico, ou seja, que se adaptasse à mão do utilizador e fosse fácil de abrir e girar. Este produto partiu então da projeção de pedras pré-históricas, que eram utilizadas como utensílios práticos, para a criação de uma peça que fosse adaptável e vantajosa, mas esteticamente bonita.

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Esboço do projeto

 

Nunca tinha pensado nesta perspetiva e, de facto, faz sentido e é interessante perceber o pouco valor que é dado aos objetos hoje em dia, sobretudo aos objetos construídos e projetados pelos designers. É fascinante perceber como é que o processo de criação, desenho e realização acontecem por detrás da vasta produção de objetos que vemos todos os dias. Nada é realizado ao acaso e tudo tem um propósito que deve ser compreensível ao olhar daquele que compra as peças. O designer deve perceber que constrói para a sociedade, mas em primeiro lugar para si mesmo e que aquilo que cria deve ser uma resposta para um problema que enfrenta e que necessita de ser resolvido. O design deve ser, reforçando mais uma vez aquilo que Mario Trimarchi defende e com o qual concordo, um problema pessoal e não um objetivo para ganhar dinheiro. Assim, todos os objetos devem ter significado e cada designer deve concordar em mostrar a sua individualidade ao mundo, nunca deixando para trás o esboço, o desenho e a projeção de ideias no papel.

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Projeto final

É fascinante perceber o papel que o designer pode ter numa sociedade e a atitude com que Mario enfrenta a sua profissão e os problemas do quotidiano, tentando sempre arranjar soluções da forma mais criativa e interessante possível. Curiosa é também a maneira como Mario Trimarchi trabalha com conceitos que parecem ser pouco habituais e consegue transformar estes em peças cuja utilidade é necessária e exigida pelo público. Embora esta secção dos Encontros fosse aquela que decidi abordar, devido às razões já formuladas, penso que seja importante realçar aquilo que este evento foi, no geral, para mim. Com este encontro de designers, que são muito diferentes e que trataram, por isso, temas também bastante diferentes, consegui concluir que o design está, definitivamente, em tudo e necessita sempre de uma metodologia. Como futura designer devo, por isso, olhar para o mundo com um olhar atento e perceber o que é que este precisa que eu idealize, seja em que área do design me encontre. Contudo, não posso simplesmente fazer. Tenho de ter sempre consciência de que todo o trabalho envolve um processo e que este deve passar pelo planeamento, idealização, projeção e realização.

Concluo então, citando Mónica Moura, que define o design de uma forma muito semelhante aquela como eu o vejo baseado naquilo que retirei destes Encontros:

Design significa ter e desenvolver um plano, um projeto, significa designar. É trabalhar com a intenção, com um cenário futuro, executando a conceção e o planeamento daquilo que irá existir. Criar, desenvolver, reproduzir um projeto – o design – significa pesquisar e trabalhar com referências culturais e estéticas, com o conceito da proposta. É lidar com a forma, com o feitio, com a configuração, com a elaboração, o desenvolvimento e o acompanhamento do projeto.

 

Bibliografia:

Mario Trimarchi. Dezembro de 2016. Mario Trimarchi.

Disponível em: http://mariotrimarchi.eu/

Belas Artes. Dezembro de 2016. Encontros de Design.

Disponível em: http://encontrosdesign.belasartes.ulisboa.pt/

Designices. Dezembro de 2016. Mónica Moura.

Disponível em: http://designices.com/o-que-e-design/

 

Joana Simões

 

 

 

 

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